quinta-feira, 12 de julho de 2007

Reflexo da Loucura

Conto clássificado na fase regional do Mapa Cultural de 2005. Foi o grande vencedor na cidade de Osasco, entre centenas de participantes. Infelizmente não passou pela fase Estadual, mas já tem méritos suficientes e qualidade inegável para lhe prender na frente do PC com um suspense sobrenatural bem diferente. Não é de minha autoria. Pertence ao amigo Paulo Henrique Facchini. Novamente o Blogger esta de cu doce e não consigo postar imagens para interagir com esse conto, mas nada tão grave assim, né? Enjoy!!!

(Prova de que não sou mentiroso: http://www.osasco.com.br/on212.php)

Dizem os antigos que numa cidade ribeirinha ocorreu um fato que todos ainda tentam confirmar como lenda. Ocorreu no interior do estado, quando ainda éramos um povo dominado pelas oligarquias rurais.
Numa cidade do interior que era cortada pelo Rio Tietê, vivia um imigrante alemão por volta de quarenta anos, seu nome era Hans Wats, era filho de Rug Wats e deste havia herdado as terras. Suas terras ficavam ao lado do rio e eram improdutivas.
Hans sempre culpava seu pai pelos problemas, afinal a situação dele, de sua esposa e de seus três filhos não era nada boa. Alcoólatra desde moço tinha o costume de depois da lavoura ir até o bar Rabo de Galo e acabar sozinho com uma garrafa de cachaça.
Certa noite, Hans chegou bêbado e revoltado em casa. Abriu a porta e resmungando foi direto para o banheiro. Fechou a porta com a taramela e começou a urinar, enquanto urinava sentia raiva do pai, afinal, depois que o velho fugiu, as terras nunca mais deram lucro e ainda tinha que ouvir no bar os outros zombarem de seu trabalho.
Terminou, fechou o zíper, e virando-se deparou com o espelho. Seus olhos envesgavam-se e ele continuou a olhar fixamente na figura. Dado um tempo, começou a enxergar no espelho o reflexo do seu pai. Resmungou da vida e começou a xingar a imagem, xingou tanto e aquilo lhe dava tanto prazer que se sentindo cada vez mais macho começou a desafiar a figura para um combate.
Seus dois filhos menores e sua mulher choravam e batiam na porta que não abria devido a taramela.
Hans olhava para o espelho e apontando para o mesmo disse em bom tom que quebraria a cara do pai se o visse. Antes de reparar algo, sentiu um punho cerrado acertando em cheio sua orelha. Perdeu a embriagues, sua coragem extinguiu-se na mesma velocidade, mas a flagelação não parou. Sem entender e ver ninguém, sentia golpes maciços acertar todo seu corpo. Era jogado de um lado para o outro com os golpes que o atordoava. Desesperado, tentou correr para a porta, a taramela rodava, mas nunca parava de modo que ele pudesse abrir a porta. Chorava como criança, e apanhava como adulto, até que escorregou, bateu a cabeça no chão e ficou desacordado.
Seus filhos e mulher, descalços sentiram algo molhar seus pés, olharam para baixo e em pânico viram o sangue passando por baixo da porta. Chorando desesperadamente pediram para a filha mais velha ajudar a abrir a porta, esta por sua vez fez-se de rogada e continuou na cama.
A menina, que sabia um pouco sobre ciências ocultas, deitou, fechou os olhos, e fez uma concentração até sair de seu corpo.Foi vagando até o banheiro, onde viu seu avô chorando olhar para o filho estatelado no chão. A menina ficou comovida, mas sem esperar viu Rug correr e entrar no seu corpo.
Rug tomou a forma da menina, levantou-se da cama. Andou calmamente até a família que chorava e disse para não se preocuparem que era só um acidente da bebedeira. A mãe ainda fragilizada tentava acalmar aos dois filhos menores. O que surtiu efeito momentâneo.
Rug na forma da menina disse para os cinco ficarem calmos que ele só ia resolver um assunto e já voltava. Ninguém compreendeu direito, mas não deram importância afinal o importante era que Hans estivesse bem.
A menina de aproximadamente quinze anos chegou no Bar e perguntou onde estava o Nino, este que era um dos maiores agricultores da região. Os homens com malícia no olhar, afinal apesar de nova a filha de Hans já tinha porte de mulher, indicaram o banheiro. Ela pegou uma garrafa de conhaque pelo gargalo e andou até parar em frente a porta do banheiro. A porta abriu, Nino de quase setenta anos olhou aquela loirinha linda com a garrafa na mão, deu um sorriso e levantou bem a aba do chapéu. Rug sentiu que era a hora, virou-se um pouco e puxou a garrafa com toda a força, um golpe realmente forte na testa do Nino o que assegurou a queda. A garrafa quebrou e mais do que depressa, Rug pegou um caco de vidro grande e passou no pescoço de Nino. A pele esticou, enrugou e verteu sangue numa quantidade que as mãos de Nino não conseguia estancar.
Os outros olhavam perplexos e sem nenhuma reação. A menina largou o caco, se levantou e olhando para os outros saiu andando calmamente. A calma foi tanta, que qualquer um ali ficou pensando duas vezes em denunciar e correr o risco de ser o próximo.
Rug voltou para casa. Lavou a mão na pia de limpar peixe lá fora perto do poço. Andou lentamente até a edícula e pegou uma pá. Cavou uma cova, nisso a mulher de Hans chorando analisava tudo da varanda. Rug foi até a beira do rio e embaixo da plataforma improvisada de pesca começou a entrar. A mulher de Hans que seguia o corpo da sua filha olhou e foi ajudar a menina. Viu quando de dentro d’água a menina começou a puxar um punho.
A menina olhou para a mãe e esta desceu para ajudar, puxaram o corpo do avô até a cova. O corpo estava lá a trinta anos, era acinzentado, com uma séria lesão na nuca e uma marca de faca nas costas, provavelmente morrera afogado. Deitaram o corpo na cova e como uma mágica o corpo de Rug se desfez sobrando só os ossos dentro da vala. A menina desmaiou e a mulher de Hans desesperada, tomada de um impulso enterrou os ossos.
Dizem que Rug Wats descansou em paz depois do feito. Que as terras de Hans Wats são até hoje grandes produtoras de policulturas, e que Hans morreu podre de rico degolado com um caco de vidro. Sua primeira mulher, mãe de seus filhos, ficou louca e morreu anos depois no manicômio. Seus filhos venderam suas terras anos depois. E sua filha nunca mais foi vista, a não ser próxima a fontes d’água e espelhos a procura de seu corpo.

Um conto de Paulo Henrique Facchini.
Osasco, 24 de maio de 2005.

Jurandir, O Malandro do Km 13.

Esse conto divertidissímo, foi escrito pelo amigo Paulo Henrique Facchini, e ele disponibilizou para este blog. Galera, dessa vez não vai ter imagem, porque o Blogger esta fazendo cu doce e não tá postando as divertidas e agradáveis imagens que acompanham o Jurandir. Quando tudo estiver OK eu republico! (essa palavra existe?)

>>>>>>>>>>>

Época do samba de gafieira, o jogo do bicho faz de seus dirigentes verdadeiros mafiosos, os malandros povoam os guetos, mas nenhum é tão admirado e esperto quanto o bronzeado e forte Jurandir.
Morador de um cortiço humilde no bairro Km 13, Jurandir conseguia tocar sua vida a base de suas malandragens e como ele mesmo dizia: “Não confunda malandro com maloqueiro, afinal eu engano, mas não roubo!”.
Camisa chamativa aberta até a altura do peito assim exibia as correntes de ouro maciço, calça boca de choro, sapato e na cabeça seu famoso chapéu panamá. Pra cima e pra baixo, com o gingado malandro.
Levava a vida através da malandragem. Pagava o aluguel com o dinheiro que ganhava na sinuca. Não trabalhava, era patrocinado por uma madame da alta. Para ser patrocinado ele precisava apenas ir três vezes na semana a mansão no horário do expediente do marido dela, dono de uma joalheria. As correntes de Jurandir eram todas presentes de lá.
No cortiço respeitava a mulher de todos. Ali também existia uma tal de Dona Dirce, uma quarentona desquitada, redonda e com fortes sinais de desgaste com o passar dos anos. Era a vizinha dele, mulata feia, que pouco se banhava e perdidamente apaixonada pelo malandro.
Jurandir de vez em quando fazia um carinho nela porque em troca tinha roupa lavada, passada e cheirosa. Lavava até as cuecas . O caso era totalmente secreto, ele fazia questão do sigilo. Afinal o malandro fazia aquilo por preguiça de cuidar da própria roupa.
Com seus rendimentos estava longe de possuir um automóvel. Só sabia dirigir porque trabalhou muito tempo como manobrista. Perdeu o emprego depois de flertar com a esposa de um cliente, mas não foi ruim para ele não, pelo contrário.
Ele foi embora levando o uniforme de manobrista e quando queria impressionar vestia aquela roupa e ia até o antigo emprego. Todo sábado ia ao restaurante um senhor chamado Oscar, dono de um carro esportivo, caro e lindo. Esse mesmo senhor só saia de lá no encerramento do movimento.
Ou seja, Jurandir pegava o carro como manobrista, trocava de roupa, dava suas voltas, no final da noite entregava o carro pontualmente de tanque cheio (dizia que era cortesia da casa) e ia embora sem ser percebido já que o restaurante era o mais movimentado da cidade.
Era o seu truque para alimentar o sonho de ser rico e também conseguir namorar as meninas ricas. Era bonito, cabelos e olhos castanhos, sobre a boca um bigode fino o qual passava o dedo sempre que dava alguma investida. Seu jeito fácil de falar e sedutor o classificava como um “bom de papo”.
Certo dia foi na quadra do Esportivo, clube onde sempre tinha bailes embalados aos sucessos de Demônios da Garoa. Estava com seus companheiros bebendo cerveja e dando risada. A paquera dava esperança e resultados para todos presentes.
Com o passar das horas o salão foi ficando vazio e alguns rapazes arranjaram confusão. Briga generalizada, todos foram para a delegacia, exceto Jurandir. Ao ver a policia chegar pulou o balcão do bar, pegou um avental, tirou o chapéu e olhou as prisões serem efetuadas. Voltou pra casa antes de ser reconhecido como arruaceiro.
Dentre os vizinhos de Jurandir estava o seu Raul. Seu Raul tinha trinta e seis anos, nunca sorriu nem cumprimentou alguém. Muito alto, forte e um tanto desengonçado. Saia de manhã cedo. Voltava no fim da tarde e não saia mais. Alguns diziam que tinha mulher, outros que não, a questão é que Jurandir nunca tinha visto mulher alguma.
O malandro conheceu uma menina um tempo depois. Seu nome era Maria. Ela era tudo que o malandro gostava, mas ele não era o homem que ela sonhava em casar e muito menos o que o pai dela aceitaria como genro.
O pai dela foi o primeiro que não caiu no golpe do carro do senhor Oscar, nem no ouro das correntes. Era um homem muito esperto, foi policia até ser acertado e agora era dono do Botequim do Agenor. Vivia no meio da malandragem e sabia que Jurandir tinha o perfil exato dos malandros boêmios. Assim Agenor decidiu que Jurandir só poderia visitar Maria se fizesse algo que enaltecesse sua pessoa.
Jurandir ou Jura como era chamado pelas mulheres voltou à ativa, atacava todas sem distinção e elas iam a loucura. Ele e Altair, seu melhor amigo, faziam-se de bons cristãos só para na missa de domingo conseguir ficar mais próximos das moças e marcar encontros que em sua maioria eram frustrados pelos irmãos e irmãs mais novos, enviados pelos pais para evitar que as filhas fossem seduzidas e defloradas.
Jurandir conseguiu na missa de São João uma proeza inigualável. Marcou de sair com Ana Selma, foram ao cinema e o rapaz conseguiu deflorar a garota mais bonita e desejada de todo Km 13. Ela apaixonou-se, mas não passava de mais uma fã porque ele só pensava em Maria.
Começou a se sentir desmotivado para as outras mulheres. Mantinha sim a mesma vida de malandro e boêmio, dando carinho a madame e a Dirce fedida, mas como lazer não queria mais mulheres. Na sinuca não era mais absoluto, começou a perder e o dinheiro do aluguel ficou apertado.
Cada vez mais deprimido deixou de sair de casa quando seus amigos iam atrás de mulheres. Altair veio um dia até sua casa e tentou colocar em sua cabeça que ou Jura deixava de viver como malandro e passava a trabalhar ou esquecia de uma vez Maria porque o pai dela nunca aceitaria um malandro.
Ao ouvir falar em ter que trabalhar, Jurandir suou, ficou com medo e desistiu de Maria. Vestiu sua melhor troca de roupa, Altair sentia-se feliz em ver o amigo motivado daquele jeito. Saíram, se divertiram e quando voltaram o rapaz ficou em casa embriagado.
Deitado, acordou. Ainda mantinha os olhos fechados. A cabeça doía por conta da ressaca. Ficou pensando sobre coisas cotidianas até perceber seu raciocínio ser interrompido por um choro muito baixo. Abriu os olhos como se ajudasse na percepção. O choro continuou, irritado fechou os olhos de novo até dormir, mas não antes de planejar algo.
No outro dia, olhava pela janela. Estava de pijama e viu seu Raul saindo para ir trabalhar. Calçou os chinelos e correu até a casa do vizinho. A porta estava trancada. Pensou um pouco. Foi até a quitanda próxima do cortiço. Roubou uma folha de jornal que era usada para embrulhar as frutas. Voltou, colocou a folha por baixo da porta do vizinho e com o mindinho empurrou a chave até ela cair do outro lado. Puxou a folha e pegou a chave.
Abriu a porta, passou e encostou a mesma. Vasculhou um pouco a casa, impecavelmente limpa. Olhou na cozinha, banheiro até ir ao quarto. No quarto viu uma mulher muito bonita e totalmente desconhecida.
A mulher se escondia, era a esposa de Raul e pedia para que Jurandir fosse embora. Evitava até o contato visual, apresentava muito medo. Conforme o rapaz mostrava uma postura de valente a mulher começou a conversar mais e esclarecer algumas dúvidas.
Contou que fazia mais de anos que não via o Sol, o ciúme que o marido nutria era tamanho que se o chão da casa não estivesse brilhando era porque ela perdeu tempo traindo e por isso como castigo apanhava. Tentou escapar algumas vezes, mas sempre foi encontrada, por isso desistiu de fugir. Conversaram até o fim da tarde.
Jurandir ia levantar quando a porta foi aberta de uma vez seguindo um golpe forte contra a fronte do rapaz que caiu desmaiado. Raul trancou a porta, duas voltas na fechadura. Tirou o chapéu, o paletó e a camisa. Expôs os punhos serrados, a calça segura pelo suspensório e botinha, de operário.
A dor era imensa, sentia como se tivesse bebido todas e agora a ressaca chegasse. Abriu os olhos, não estavam bons. Sua visão estava turva e sem nitidez. Já a escuta estava perfeita e demonstrava que o agressor ainda estava lá. A mulher chorava baixinho. Voltou a enxergar normalmente.
O gigante Raul estava com um cutelo na mão, sentado numa poltrona. Sua mulher pedia para que não acabasse com Jurandir, mas isso só irritava mais o marido. Levantou. O malandro que nunca teve a coragem como virtude, deu um grito de socorro tão alto que deixou o dono da casa sem reação por alguns instantes.
O gigante retomou o raciocínio anterior, apertou o cabo do cutelo, deu dois passos e levantou o braço que empunhava a arma. Jurandir rezava e jurava que nunca mais ia ser daquele jeito. Nessa hora arrombou a porta e entrou cabo Antônio, vizinho de cortiço com arma em punho e pedindo que Raul abaixasse o cutelo. O homem atendeu e logo depois foi preso.
Jurandir deu um suspiro longo e saindo falou com Deus que nunca mais ia ser daquele jeito. Não ia ser mais intrometido na vida do outros. Foi ai que viu um fotografo do jornal da região que passava por ali e queria cobrir o caso. Conversaram um pouco, bateram uma foto e Jura deu uma quantia ao repórter.
No outro dia, no caderno dos acontecimentos diários a noticia em destaque era que o corajoso Jurandir Neves para proteger uma mulher que mal conhecia lutou desarmado contra marido opressor, ciumento e munido de um cutelo, e tudo isso porque era um cavalheiro e um homem honrado.
Era a prova que Jurandir precisava para mostrar para a sociedade, e para o pai de Maria, que tinha caráter e era digno o suficiente.

Um conto de Paulo Henrique Facchini.
Osasco, 29 de junho de 2005.